Aprendendo a ser negro

Por Guilherme Araujo Silva, Mestre em Ciências da Linguagem, Gerente de Relacionamento e Mercado da UnisulVirtual

Outro dia li em um veículo de comunicação da internet, que não lembro qual, o depoimento de uma senhora, que afirmava que apenas aos 65 anos aprendeu que era negra. De início me questionei: como assim, aprendendo a ser preta? Como alguém, em 2018, poderia não entender-se negra tendo a pele preta?

Depois de muito analisar sobre essa situação, passei a me questionar a respeito…

Como homem negro, eu mesmo havia sido vítima desse apagamento. Lembrei da repetição de enunciados relacionados a uma possível origem familiar italiana e alemã que foram constantes durante toda a minha infância. Também recordei da minha primeira certidão de nascimento, a qual não indicava a cor. E ainda hoje reflito sobre as inúmeras vezes em que sou chamado de moreno, em vez de negro.

A partir das minhas experiências, analiso que em alguns casos o racismo se apresenta de maneira a ocultar seus vestígios, de maneira velada, impedindo ao sujeito negro e a sociedade de perceberem-se nesse lugar. Todavia, isso não impede sua existência. Não é à toa que diariamente surgem denúncias relacionadas ao racismo por atrizes, atores, atletas e outras celebridades. Também não impede que as mulheres negras sejam as principais vítimas da violência contra mulheres e que os jovens negros e de baixa escolaridade sejam as principais vítimas de homicídio.

Enquanto sociedade, não podemos negar. Houve sim a escravização de índios e negros no Brasil. E ela provocou um verdadeiro holocausto, vitimando milhões de pessoas. E isso se reproduz e se repete até os dias de hoje.

Se por um lado, o movimento de alguns é de não retomar a memória da escravização, por outro haverá quem a invalide ou quem retome essas memórias produzindo efeitos de sentido preconceituosos.

Por essa razão, sou favorável ao estabelecimento do dia da Consciência Negra, pois o mesmo possibilita a reflexão por toda a sociedade de uma questão que é constitutiva da nossa nação. Em Israel, por exemplo, há um dia para lembrarem do Holocausto e aqui não pode ser diferente. A consciência da nossa história é a melhor maneira de combatermos o preconceito.
Axé.