Dependência tecnológica pode se tornar doença

Mariana Dal Bó acorda às 8 horas da manhã todos os dias e a primeira coisa que faz, antes mesmo de escovar os dentes ou tomar café, é ligar o notebook. A contadora de 26 anos passa o dia todo trabalhando na frente dele e, quando não está em seu escritório, em Tubarão, o computador portátil vai dentro da bolsa. “Também tenho acesso à internet pelo celular. Então quando estou em local público onde não posso utilizar o notebook, como em uma festa, uso o telefone móvel”, conta.

Segundo o filósofo e também professor de sociologia da Unisul, Anderson Mendes, Mariana sofre de um problema extremamente sério e atual, que se trata do processo comportamental que cada geração apresenta diante da tecnologia. Com as descobertas nesta área ao longo dos últimos séculos, sobretudo em meados do século XX, entramos na era da informática, que trouxe a revolução da comunicação. “Toda a estrutura básica da sociedade e suas instituições foram afetadas por essa revolução. A família, a educação, a religião, a informação e o trabalho começaram um novo momento histórico e dentro desse momento também ocorreram fissuras responsáveis pelas doenças modernas como stress, depressão e dependência tecnológica”, explica.

Mariana passa mais de 20 horas do seu dia utilizando meios eletrônicos. Tem crises de ansiedade sempre que pensa que está sem comunicação com o mundo. Tudo o que consegue imaginar é que irão procurá-la e ela não estará disponível. “Seja pelo celular ou internet, independente do assunto que tiverem para tratar comigo, não suporto a situação. Isso realmente atrapalha a minha vida, pois já deixei de sair várias vezes com meus amigos, por exemplo, para ficar usando a internet, lendo blogs e mídias sociais”.

Em entrevista para a revista Gestão e Negócios, a psicóloga clínica e hospitalar e coordenadora do Centro de Estudos e Pesquisas em Psicologia e Saúde (Cepps) de São Paulo, Adelaide Degani de Cantone, lembra que “com relação ao estresse, resultante de qualquer situação onde o limite de suportação de adversidades é ultrapassado, o indivíduo poderá desenvolver Transtornos Psicossomáticos. Estes, normalmente se manifestam de fadiga crônica e problemas com sono a alergias. Assim, há possibilidade de ocorrência de graves danos emocionais, físicos e sociais”, fala.

A psicóloga e coordenadora do Serviço de Psicologia da Unisul, Samia Rahim, diz que, a partir do momento em que não sabemos controlar o uso ou consumo de algo, o vício está caracterizado. “A tecnologia veio para nos ajudar no dia a dia do trabalho, na comunicação. É um benefício. Mas utilizada de maneira exagerada e sem controle, vai trazer o mal, como acontece com qualquer outro tipo de dependência. A partir do momento em que se deixa de comer nos horários certos, de dormir, de ter a vida social com amigos e família em função do vício, a pessoa precisa procurar ajuda especializada”.

Samia levanta um questionamento: “será que estamos preparados para lidar com tantos recursos e tanta tecnologia tão rápido? É necessário ter maturidade para utilizar os instrumentos de forma que nos tragam apenas benefícios”. Para a dependência tecnológica há tratamento e cura, mas sempre irá depender do reconhecimento do sujeito. “O primeiro passo sempre é se perceber doente e compreender que a pessoa está fazendo mal para si mesmo com aquele hábito. Através da Terapia Cognitiva Comportamental, o paciente pode conseguir a cura e se ver livre do vício”, acrescenta.

Mariana faz terapia há quatro meses, mas confessa que não foi fácil se assumir doente. “Quando falamos em vício, logo pensamos em cigarro, bebida alcoólica e outros tipos de drogas. Eu já havia me percebido diferente em relação à tecnologia, mas nunca parei para entender que isso poderia, de fato, ser uma doença”, conta. Quem a alertou foi uma amiga que falou brincando que estava viciada e isso a preocupou, pois percebeu que estava deixando de fazer várias coisas importantes pela dependência.

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Foto: Renan Fernandes